Romoaldo Silva tem 37 anos,
casado, brasileiro, atua na área de segurança pessoal
e patrimonial, praticante de Wing Chun desde 1985. Natural de São
Paulo capital, morando hoje na cidade de Santo André, ABC
paulista. Estudante interno da Applied Wing Chun, International
Li Hon Ki Martial Art and Chinese Herbalist Association, é
estudante do Professor Márcio Silva.
Applied Wing Chun Brasil:
Professor Romoaldo Silva, com qual idade você iniciou sua
trajetória nas artes marciais?
Romoaldo Silva:
Com 16 anos de idade.
AWCB: Fale
um pouco sobre suas experiências no campo das artes marciais.
Romoaldo Silva:
Começei treinando Kung Fu, passando pelos estilos Serpente
e Shaolin. Posteriormente, treinei Karatê Kyokushin, onde
fui companheiro de treino do famoso karateca brasileiro Francisco
Filho. Depois conheci o Wing Chun e treinei quatro diferentes
linhagens, consagrando-me agora como praticante da Applied Wing
Chun Brazil, sob a orientação do meu Sifu Márcio
Silva.
AWCB:
Você é um dos praticantes mais experientes de Wing
Chun no Brasil, seu envolvimento com nossa arte consta desde os
primeiros anos de prática do estilo em nosso país,
correto?
Romoaldo Silva:
Exatamente, pratiquei com quase todos os principais instrutores
e mestres que ministravam aulas de Wing Chun no Brasil desde 1.985.
AWCB: Poderia
fazer um paralelo da época que você iniciou seus estudos
de Wing Chun com nossos dias, por favor?
Romoaldo Silva:
Devido a situação do país, vivíamos
fechados em nosso mundo. As informações eram restritas.
Não sabíamos ao certo a procedência dos ensinamentos
transmitidos. Naquele tempo era você e seu instrutor. Mesmo
nos grandes centros, a carência de informação
era grande. Traçando um paralelo entre o passado e o presente,
podemos sentir consideráveis mudanças. Apesar de
existir muitas regiões em nosso país ainda carentes
de tecnologias e trabalhos para valorizar a cultura, é
possível hoje o praticante checar, observar as raízes
e relacionamento do seu professor com aquele que lhe transmitiu
a arte, assim como o nível e reconhecimento dele dentro
da organização que ele participa. Na minha opinião,
isto é importante para garantir um aprendizado fidedigno.
Quanto a obter informações, a internet, livros,
revistas especializadas, tudo isso que faz parte da chamada globalização,
facilitou bastante este processo. Pouquíssimos tinham acesso
a algum tipo de informação sobre o Wing Chun antes.
Quando alguém dizia que treinava com certa pessoa, você
tinha que acreditar, hoje não, o mundo está mais
próximo. Não é possível deixar de
ser sincero com seus alunos sem pagar o preço por isso.
Não só no Wing Chun, hoje você pode conhecer
melhor aspectos de diferentes artes marciais. Acredito ser hoje
em dia, bem mais fácil você avaliar a procedência
da arte, da escola e do instrutor onde você está
estudante arte marcial.
Eu tive sorte de estudar artes marciais com pessoas boas, que
sempre foram gentis comigo. Mas sei de histórias de pessoas
que não tiveram a mesma sorte. Isso é triste e ruim
para nós praticantes de artes marciais.
AWCB:
Como foi seu interesse em treinar Wing Chun Kung Fu e seu contato
a Applied Wing Chun?
Romoaldo Silva:
Como a maioria da minha época, os filmes sobre Bruce Lee
e o Kung Fu despertou em mim o interesse em conhecer o Kung Fu,
especialmente o Wing Chun. Após treinar outros estilos,
acabei adaptando melhor ao Wing Chun. Após conhecer algumas
organizações de Wing Chun, achei alguns aspectos
interessantes, até encontrar certa vez com Mestre Li Hon
Ki e escutar um pouco sobre a experiência dele e do seu
treinamento com Mestre Duncan Leung, isso mais ou menos no final
do ano de 1996. Este foi meu primeiro contato com a família
do Mestre Li Hon Ki..
AWCB:
E como foi, você passou a treinar com Mestre Li Hon Ki então,
ou surgiram alguns conflitos de mudança?
Romoaldo Silva:
Sim, surgiram conflitos de mudança. Não fui treinar
imediatamente. Eu tinha uma visão do Wing Chun dos treinamentos
anteriores. Minha ex-esposa até incentivou eu iniciar meu
treinamento com Mestre Li Hon Ki, mas resolvi amadurecer a idéia.
Nesta época, eu e Professor Márcio Silva éramos
apenas amigos e companheiros de treino. Após eu comentar
com ele sobre a conversa que tive com Mestre Li Hon Ki, ele acabou
indo conhecê-lo também e iniciou seu treinamento
primeiro. Como sempre fomos muito amigos, ele disse que eu deveria
treinar também, que ele estava gostando bastante. Eu estava
recém casado, e após organizar minha vida, iniciei
meu treinamento também na escola do Mestre Li Hon Ki,
ministrada pelo Professor Edy Freire na época. Confesso
que senti algo diferente das outras vezes. A teoria e prática
da linhagem do Mestre Duncan Leung era distinta de todos meus
estudos anteriores. Eu tinha muitas dúvidas naquela fase,
e por um tempo, acabei parando para analisar o que eu estava aprendendo.
Pois era bastante diferente. Acredito que eu acabei caindo na
visão comum de achar que já sabia muito sobre o
Sistema Wing Chun, e tudo aquilo era bastante novo para mim. A
transição entre meu estágio no Wing Chun
naquela época para os novos conhecimentos que precisava
adquirir, foi algo bastante difícil de aceitar. Mas após
superar esta fase, comecei a colher os frutos da minha persistência
e paciência também. Tudo graças ao incentivo
do Mestre Li Hon Ki, Professor Edy Freire e Professor Márcio
Silva, que me ajudaram bastante.
AWCB:
O Sistema Wing Chun tem ajudado você nas suas relações
pessoais e inter-pessoais?
Romoaldo Silva:
O Wing Chun mudou minha vida em todos os sentidos. O ser humano
é composto de diferentes comportamentos. O aspecto de combate
do Wing Chun é magnífico, você transcender
seu conhecimento marcial para resolver e entender os diferentes
comportamentos das pessoas é muito interessante. Isso dá
certa vantagem em relação as outras pessoas, no
sentido que você passa a compreender as atitudes, medos
e falta de confiança dos outros, fazendo com que possamos
assim, ser pacientes e buscar mostrar à elas uma visão
melhor e diferente de ver os problemas e a vida. Isso eu devo
graças ao meu atual desenvolvimento dentro do Sistema Wing
Chun.
AWCB:
Esta visão de relacionamento você adquiriu através
do sistema Wing Chun?
Romoaldo Silva:
Claro! Na família Kung Fu, temos algo que chamamos “Vida
Kung Fu”, onde aprendemos a cuidar dos nossos Si-Dais (Irmãos
mais novos) e respeitar nossos Si-Hings (Irmãos mais velhos),
assim como seu Si-Fu (Mestre/Instrutor). Essa idéia de
zelar pelos membros da família, faz com que você
estenda isso para seu dia-a-dia. Você passa a ser mais atento
e não ligar para coisas menores. Aprendemos na Applied
Wing Chun a sermos grandes, pensarmos grandes. Isso é algo
que você não aprende em cursos. Isso é vivência,
hábito e desprendimento. Este aprendizado no Wing Chun
é invisível, mas você pode sentir, se tiver
a devida instrução e aprender a praticar.
AWCB:
Você deve ter passado por vários momentos difíceis
para adquirir esta visão do Wing Chun, isso foi um sacrifício
pra você?
Romoaldo Silva:
Não encaro como sacrifício. Foi um aprendizado.
Não me arrependo de nada. Todos estas atitudes e obstáculos
que passei, toda minha busca para obter e conhecer o que pra mim
é o verdadeiro Wing Chun, valeu muito a pena. Todos ensinamentos
que recebo do meu Professor Márcio Silva, das oportunidades
que tive de aprender com meu Sigung Li Hon Ki também, faz
eu ficar satisfeito e trouxe grande satisfação e
incentivo.
AWCB:
Qual sua visão das pessoas que estão iniciando seu
aprendizado no Sistema Wing Chun?
Romoaldo Silva:
Pessoas que tem grande oportunidade para conhecer o Sistema Wing
Chun sem grandes dificuldades do passado. Que prestem atenção
que o Wing Chun hoje é uma grande família. Não
se contentem com pouco, busquem o aprimoramento máximo.
Conheçam novos trabalhos se desejarem para adquirir uma
visão mais abrangente. E escolha o melhor.
AWCB: Hoje
você tem dedicado grande parte do seu tempo no aprendizado
do Sistema Wing Chun, sendo um estudante interno, dividindo sua
vida pessoal e profissional com seu treinamento intensivo. Fale
um pouco sobre esta sua decisão.
Romoaldo Silva:
Foi uma alternativa, estava na fase de separação e queria
dedicar mais tempo no meus estudos de Wing Chun, aproveitando
o programa de incentivo criado por nossa escola. Hoje eu não
busco somente técnicas de Wing Chun, mas absorver assuntos
intrínsecos do sistema. Passando mais tempo no Mo Kwoon
(Escola Marcial) eu posso dar a oportunidade de aprender mais
com meu Sifu, recebendo informações e aprendizados
“além-técnica”, onde a “Vida
Kung Fu” pode ser sentida com êxito e plenitude. Para mim,
o verdadeiro Wing Chun tem uma energia, e precisamos fazer fluir
esta energia. Temos que respirar este ambiente. As dificuldades
são facilmente contornáveis. Você aprende
a aprender. Esta decisão foi certa, e estou colhendo os
frutos disso.
AWCB: Qual
a mensagem e consideração final você gostaria
de deixar Professor Romoaldo?
Romoaldo Silva:
Agradeço meu amigo que hoje tenho
o prazer de chamar de Sifu, Mestre Márcio Silva, meu Si-dai Lúcio
Lima, que tem acompanhado minha trajetória a mais de dez
anos e todos aqueles que tem ajudado, aprendido e ensinado muitas
coisas sobre o mundo das artes marciais para mim. Também
desejo que todos que estão envolvidos com as artes marciais,
principalmente o Wing Chun, possam fazer deste instrumento uma
forma de abster do egoísmo, sentimentos menores e negativos.
Vejo que muitos ainda tentam reviver rixas antigas, criticam àqueles
que não conhecem. Buscar entender aquilo que nos incomodam,
vivenciá-las de forma inteligente, é ainda o melhor
caminho para obter a compreensão de uma arte ou assunto.
Felicidades à todos e muito obrigado pela oportunidade.
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